
Quase 84 milhões de mulheres poderão votar nas eleições de outubro. Elas representam 52,84% do eleitorado brasileiro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nas candidaturas, porém, a realidade é diferente: as mulheres são apenas 34,8% dos registros apresentados para as eleições de 2026.
Ao todo, são 7.138 candidatas entre 20.501 nomes. É o maior percentual já registrado no país, mas representa avanço de apenas um ponto percentual em relação a 2022.
A desigualdade aumenta quando se observa quem já ocupa o poder. Atualmente, as mulheres são 91 entre os 513 integrantes da Câmara dos Deputados, ou 17,7%, e ocupam somente 15 das 81 cadeiras do Senado.
Para a secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, Amanda Corcino, quem é maioria nas urnas ainda está muito distante de participar, na mesma proporção, das decisões do país.
“A sociedade brasileira precisa olhar com mais atenção para quem elege para a Câmara e o Senado. A baixa presença de mulheres nesses espaços continua muito aquém do que seria justo”, afirma.
Candidaturas avançam, mas lentamente
A participação feminina varia conforme o cargo. As mulheres representam 36,6% das candidaturas à Câmara dos Deputados, 35,5% à Câmara Legislativa do Distrito Federal e 34,4% às assembleias estaduais. Para o Senado, são apenas 21,9%.
A presença é ainda menor nas disputas pelo Executivo, onde não se aplica a cota de gênero: as mulheres correspondem a 16,4% das candidaturas aos governos estaduais e a 15,4% das que concorrem à Presidência da República.
O recorte racial também evidencia desigualdades. Mulheres pretas e pardas são 52,3% das candidaturas femininas, mas representam somente 18,2% de todos os concorrentes, totalizando 3.731 candidatas negras.
Em 2026, foram registradas ainda 107 candidaturas de pessoas trans, novo recorde. Pela primeira vez, o TSE incluiu identidade de gênero em suas estatísticas oficiais.
A disputa começa dentro dos partidos
A legislação determina que partidos e federações reservem entre 30% e 70% das candidaturas proporcionais para pessoas de cada sexo. A regra ampliou a participação feminina, mas o índice de 2026 ainda permanece pouco acima do mínimo exigido.
Além de registrar candidaturas, é necessário garantir condições reais de disputa, como recursos, equipe, visibilidade e tempo de campanha. A Emenda Constitucional 117/2022 estabelece que pelo menos 30% dos recursos dos fundos partidário e eleitoral sejam destinados às candidaturas femininas, aumentando proporcionalmente quando o número de candidatas superar esse percentual.
Outro obstáculo é a violência política de gênero. Ameaças, assédio, ataques e desinformação nas redes tentam afastar mulheres da política e enfraquecer aquelas que já exercem mandato, atingindo de forma ainda mais intensa mulheres negras, indígenas, periféricas e LGBTQIA+.
“O voto é livre, mas a decisão precisa ser consciente. É fundamental conhecer propostas, compromissos e escolher quem realmente representa nossas pautas e defende a classe trabalhadora”, destaca Amanda.
Quem decide também define prioridades
A escolha dos representantes tem consequências diretas na vida das mulheres. É no Congresso e nos governos que são definidas políticas públicas relacionadas a creches, saúde, cuidados, igualdade salarial, jornada de trabalho e enfrentamento à violência.
A desigualdade de gênero permanece evidente. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, em 2022 as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas. São quase dez horas a mais de trabalho não remunerado por semana.
Por isso, a CUT também considera o fim da escala 6×1 uma pauta importante para as mulheres, que muitas vezes utilizam o único dia de folga para cumprir tarefas domésticas acumuladas.
“A jornada remunerada somada à jornada não remunerada é muito maior para as mulheres. Por isso, a redução da jornada é fundamental, especialmente para quem enfrenta dupla ou tripla jornada”, afirma Amanda.
A desigualdade também aparece nos salários. O 5º Relatório de Transparência Salarial, divulgado em abril de 2026, apontou que as mulheres recebiam, em média, 21,3% menos que os homens, considerando informações de cerca de 53,5 mil empresas privadas com cem ou mais empregados.
O levantamento compara remunerações médias e não significa que todas as pessoas avaliadas exerçam a mesma função. Já a Lei nº 14.611/2023 assegura salário igual para trabalho de igual valor ou exercício da mesma função, além de prever transparência, fiscalização e medidas contra as desigualdades.
Mais presença e compromisso com direitos
Para a CUT, ampliar a presença feminina na política é fundamental, mas representatividade não pode ser apenas numérica. É necessário eleger mulheres comprometidas com a democracia, a liberdade, a autonomia feminina e os direitos da classe trabalhadora.
“Precisamos de mais mulheres no Parlamento para alcançar equidade real na distribuição de poder. Mas também é fundamental escolher representantes comprometidas com a defesa dos direitos e das conquistas históricas das mulheres”, afirma Amanda.
A dirigente ressalta que a mudança não termina nas eleições. Ela envolve também o combate à misoginia, a educação baseada no respeito e a adoção de medidas mais efetivas contra ataques às mulheres, especialmente nas redes sociais.
“Não é aceitável que mulheres sejam maioria no país e nas urnas, mas continuem ocupando menos de um quinto das cadeiras no Congresso. Essa realidade evidencia uma desigualdade histórica que ainda estrutura a política brasileira.”
Para Amanda, as eleições de 2026 representam uma oportunidade para diminuir essa distância. Os partidos precisam ampliar os espaços, financiar candidaturas competitivas e cumprir as regras sem fraude. Ao eleitorado, cabe conhecer as propostas e escolher representantes capazes de transformar as necessidades da maioria da população em decisões políticas.