Brasil

Do conflito à cidadania: Lei do Salário Mínimo completa 90 anos

Criada em 1936 e regulamentada por Getúlio Vargas, a medida foi fruto de intensas greves operárias e marcou a transição do Brasil para a era industrial.

A Lei nº 185, que instituiu o salário mínimo no Brasil, completou 90 anos na quarta-feira (14) consolidada como um pilar das relações de trabalho no país. O que hoje é visto como um direito básico, nasceu em um cenário de profundas transformações sociais e enfrentou resistência das elites econômicas da época, conforme avaliam historiadores.

A ruptura com o passado agroexportador

Antes da legislação, o pagamento pelo trabalho era regido por contratos civis de prestação de serviço, sem qualquer piso estabelecido. De acordo com o historiador Mateus Gamba Torres, da UnB, a mudança foi impulsionada por décadas de mobilização. “Ocorreram greves nos anos 1910 e 1920 com exigência de melhores condições”, explica.

O contexto internacional, com legislações avançadas em países vizinhos como o Uruguai, também serviu de pressão para que o Brasil reorganizasse suas leis enquanto deixava de ser uma sociedade puramente agrária para se tornar urbana e industrial.

O conceito de dignidade

O texto original da lei de 1936 já definia o que deveria ser garantido ao trabalhador. O salário mínimo não era apenas um número, mas um valor capaz de satisfazer as necessidades normais de:

  • Alimentação e habitação;

  • Vestuário e higiene;

  • Transporte.

Apesar da clareza do texto, a aplicação prática demorou a ser uniforme, sendo inicialmente mais efetiva na Região Sudeste.

Entre a resistência e a estratégia política

A recepção da medida pelo setor produtivo foi marcada por uma “postura dúbia”. Se por um lado as elites temiam o aumento de custos, por outro perceberam que a regulação traria uma estabilização social necessária para o crescimento econômico.

Para o pesquisador Deusdedith Rocha, do Ceub, o então presidente Getúlio Vargas utilizou a lei como uma ferramenta de controle político. Ao mesmo tempo que atendia às pressões populares, o Estado passava a mediar diretamente o conflito entre capital e trabalho, garantindo a sobrevivência mínima do operariado e injetando fôlego no mercado interno.

Um legado de sobrevivência

Nove décadas depois, o salário mínimo permanece como a principal ferramenta de regulação do trabalho no Brasil. Para os especialistas, a data reforça que as conquistas de cidadania da classe trabalhadora são, historicamente, fruto de pressão direta sobre os representantes públicos e de uma necessidade de sobrevivência que moldou a identidade do Brasil moderno.

Redação STP Sorocaba e Região

O Sindicato dos Trabalhadores Papeleiros de Sorocaba e Região é uma entidade combativa, filiada à CUT, que representa milhares de profissionais em cidades como Votorantim e Angatuba. Sob a liderança do presidente Marcão Papeleiro, atua firmemente na defesa de salários dignos, melhores condições de trabalho e na garantia de direitos históricos da categoria. Além da luta sindical, a instituição promove o bem-estar social e a saúde dos trabalhadores, consolidando-se como um pilar de resistência e apoio à família papeleira.
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