94 anos de voto feminino e a história dessa conquista que redefiniu a democracia

A data de 24 de fevereiro de 1932 não marca apenas um decreto no calendário legislativo brasileiro; ela representa o ápice de uma das mais intensas e organizadas mobilizações sociais do século XX. O direito ao voto feminino, oficializado há exatos 94 anos pelo Código Eleitoral de 1932 durante o governo de Getúlio Vargas, foi a vitória de uma guerra travada com intelecto, coragem e persistência por mulheres que se recusaram a aceitar a invisibilidade política. Diferente do que muitos registros simplistas sugerem, essa conquista não foi uma concessão benevolente do Estado, mas sim o resultado direto da pressão exercida por pioneiras que enfrentaram o machismo estrutural da época para garantir que o conceito de cidadania fosse, finalmente, estendido a toda a população.
Entre os nomes que lideraram essa transformação, destaca-se a bióloga Bertha Lutz, fundadora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, cujo trabalho de articulação internacional e política foi decisivo para pautar o sufrágio no país. Ao lado dela, outras figuras gigantescas pavimentaram esse caminho, como Maria Lacerda de Moura, anarquista e uma das primeiras feministas a questionar a exclusão das mulheres da vida pública, e Leolinda Daltro, que ainda em 1910 fundou o Partido Feminino Republicano, desafiando as leis vigentes décadas antes da vitória final. Não se pode esquecer também de Celina Guimarães Viana, que no Rio Grande do Norte, estado pioneiro na causa, tornou-se a primeira eleitora da América Latina em 1927, e de Alzira Soriano, a primeira prefeita eleita no Brasil, provando que as mulheres estavam prontas não apenas para votar, mas para liderar.
Hoje, quase um século depois, o legado dessas sufragistas ecoa em cada espaço de poder ocupado por vozes femininas, mas a jornada pela paridade plena ainda enfrenta barreiras contemporâneas. A vitória de 1932 foi o início de uma caminhada que agora exige novas conquistas, como a igualdade salarial e o combate à violência política que ainda tenta afastar as mulheres das mesas de decisão. Honrar nomes como Bertha, Leolinda e Celina significa compreender que a democracia é um organismo vivo e em constante construção. Ela só atinge sua maturidade verdadeira quando a participação de todas as mulheres deixa de ser uma luta por espaço para se tornar a base inegociável de uma sociedade justa e equitativa.